O que mudou na arquitetura de arranha-céus após o atentado ao WTC


Burj Khalifa

Rádio Arquitetura | 17SET2021


Adaptado do artigo original de Lizzie Crook para a revista Dezeen


Dia 11 de setembro completou 20 anos do ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, ocorrido em 2001 nos Estados Unidos.


Localizado em Manhattan, no coração do distrito financeiro de Nova Iorque, o complexo do WTC era formado por 7 prédios. Os dois mais altos e mais famosos eram o WTC-1, conhecido como Torre Norte, e o WTC-2, conhecido como Torre Sul.


No início daquela manhã ensolarada a torre norte foi atingida por um Boeing 767 que havia decolado de Boston, operando o voo 11 da American Airlines. Originalmente o avião tinha como destino Los Angeles, na Califórnia, mas foi sequestrado por terroristas e desviado para Nova Iorque.


17 minutos depois do primeiro impacto, outro Boeing 767 atingiu a torre sul. A segunda aeronave sequestrada também havia saído de Boston e deveria ir para Los Angeles: era o voo 175 da United Airlines. Além de dezenas de passageiros civis a bordo, os dois aviões estavam com tanques cheios de combustível. Eram voos de longa distância, da costa leste para a costa oeste dos Estados Unidos.


Atentado ao World Trade Center em 2001

Falência estrutural


Apesar da grande quantidade de energia gerada, equivalente a bombas de alto potencial explosivo, o impacto inicial das aeronaves só causou danos nos pavimentos imediatamente acima e abaixo dos andares atingidos em ambos os prédios. Porém incêndios de grande monta se seguiram, alimentados por toneladas de querosene de aviação que escorreram pelas escadas e fossos de elevadores. Isso levou ao posterior colapso das estruturas.


A torre sul, segunda a ser atingida, foi a primeira a desabar: 56 minutos após o impacto do voo UA-175. Já a torre norte acabou ruindo 102 minutos após a colisão do voo AA-11. Escombros da torre norte danificaram significativamente o WTC-7, que também desabou horas mais tarde.


A inesperada queda dos dois maiores edifícios de Nova Iorque, cada qual com 110 andares e 417 metros de altura, causou comoção mundial e gerou diversos questionamentos sobre o futuro de arranha-céus. Muitos temiam que a partir do evento com o World Trade Center esse tipo de edificação virasse alvo fácil para ataques terroristas.


Parte da solução para mitigar essa hipótese estava nos serviços de inteligência, que precisaram se tornar mais ágeis e mais eficazes na identificação e prevenção de eventos terroristas. Outra parte estava na aviação, que implementou uma série de novos e rígidos procedimentos de segurança em voos comerciais. A terceira parte da solução estava na arquitetura e na engenharia.


A rigor o WTC já havia sido projetado nos anos 1960 para suportar o impacto de uma aeronave de grande porte. A motivação para esse cuidado não era um ataque terrorista, mas um eventual acidente. A referência foi o Boeing 707, maior avião de passageiros da época, que coincidentemente tinha tamanho e peso operacional semelhantes aos modelos que atingiram as torres em 2001. Porém algo importante ficou fora dos cálculos estruturais: a potencialidade da queima ininterrupta de toneladas de combustível que aviões comerciais carregam em seus tanques.


Desabamento das torres do World Trade Center

Além disso os dois prédios mais altos do complexo tinham falhas de projeto no que se refere à quantidade de saídas de emergência, tamanho de escadas, eficiência de portas corta-fogo, funcionalidade de elevadores, acesso para aeronaves de salvamento pelo terraço, elevadores exclusivos para bombeiros, dentre outros. Detalhes vitais em grandes edificações.


As cenas dos bombeiros nova-iorquinos não conseguindo utilizar os elevadores do WTC, que estavam todos travados, e tendo muita dificuldade para subir escadas estreitas carregando 23kg de equipamentos, no contrafluxo dos ocupantes do prédio que tentavam fugir dos incêndios, são algumas das imagens marcantes daquele 11 de setembro.


Esforço conjunto


Como geralmente acontece na aviação, o único fato positivo dos acidentes de grandes proporções é que isso acaba servindo para se evitar muitos outros iguais. A tragédia em Manhattan redefiniu e ampliou conceitos de segurança estrutural e evacuação de emergência que já vinham sendo introduzidos na construção de arranha-céus.


A percepção de que não se poderia perder quase 3 mil vidas novamente, no caso de haver um novo ataque terrorista contra edifícios super altos, fez com que houvesse um somatório de esforços envolvendo serviços de inteligência, órgãos de aviação civil, arquitetos e engenheiros.


O resultado é que não apenas continuaram sendo construídos arranha-céus, como até ficaram mais altos. Isso contraria as previsões pessimistas dos dias seguintes ao atentado contra o WTC. Até 11 de setembro de 2001, havia cerca de 25 prédios com mais de 300 metros de altura no mundo. Hoje já são mais de 200. E há vários outros em construção.


Taipei 101, Taiwan

O Taipei 101 em Taiwan, com 101 andares e 508 metros de altura (91 metros a mais do que o antigo WTC), foi finalizado em 2004, apenas 3 anos depois do atentado em Nova Iorque. Foi o edifício mais alto do mundo até 2010, quando foi inaugurado o Burj Khalifa em Dubai, Emirados Árabes, com 163 andares (9 deles com exclusiva finalidade mecânico-estrutural, para ajudar a proteger o prédio contra ventos fortes e tremores de terra) e impressionantes 828 metros de altura, ainda que os últimos 244 metros sejam referentes a um pináculo. Embora tenha sido concluído em outubro de 2009 e inaugurado em janeiro de 2010, a construção do Burj Khalifa iniciou em janeiro de 2004, 28 meses após o atentado nos Estados Unidos.


Segurança norteando projetos


De acordo com o arquiteto Chris Lepine, diretor no Reino Unido do renomado estúdio Zaha Hadid Architects (ZHA), a logística e o acesso a arranha-céus foram reavaliados. Para evitar carros-bomba, não são mais construídos estacionamentos abaixo de partes sensíveis dos prédios. A proteção da base dos edifícios com barreiras para veículos e revestimentos resistentes a explosões passou a ser o critério predominante.


Para James von Klemperer, presidente da Kohn Pedersen Fox (KPF), empresa americana de arquitetura responsável por 4 entre cada 10 super arranha-céus construídos no mundo, essa tendência levou a uma proliferação de prédios fechados que se tornaram poucos sociáveis para os cidadãos. O desafio agora é contribuir para o bem-estar das pessoas ao implementar medidas de segurança. As técnicas incluem postes de amarração disfarçados como assentos e tecnologias de acesso inteligente, que tornam possível rastrear os ocupantes e visitantes de um edifício sem retardar suas entradas. Um bom exemplo disso são os sistemas de reconhecimento facial.


Já Ken Lewis, sócio do estúdio americano de arquitetura Skidmore, Owings & Merrill (SOM), que projetou o Burj Khalifa e o novo WTC-1, destaca que um dos legados mais importantes do 11 de setembro para o projeto de arranha-céus é o compartilhamento de códigos e processos construtivos. O fato de atualmente haver um padrão mais universal permitiu que arquitetos e engenheiros de diferentes países trocassem informações e lições sobre resultados positivos em projetos e sistemas de proteção à vida.


Outro esclarecimento importante é de Georgina Robledo, sócia do estúdio britânico Rogers Stirk Harbour + Partners (RSHP), que projetou o novo WTC-3, com 80 andares e 329 metros de altura. Segundo ela, uma das grandes mudanças nos códigos de construção está relacionada às saídas de emergência. No antigo World Trade Center havia apenas três escadas estreitas em cada torre e muitos andares ficaram completamente às escuras, o que ocasionou uma evacuação lenta após os ataques. Hoje as escadas devem ser mais largas, possuir iluminação de apoio e ter caminhos mais lógicos para vários pontos de saída. Escadas entrecruzadas não são mais recomendadas para edifícios muito altos.


Novo One World Trade Center

Robledo complementa que a tecnologia utilizada em elevadores de arranha-céus também melhorou muito em termos de velocidade e eficiência na movimentação de pessoas pelos andares, o que significa que em situações de emergência os ocupantes podem ser evacuados com mais rapidez do que antes. Alguns prédios já possuem um elevador exclusivo para o deslocamento de bombeiros.


Novos materiais


Nos últimos 20 anos houve uma reavaliação dos materiais empregados na construção de arranha-céus. Os núcleos dos edifícios, onde comumente ficam as rotas de saída, agora têm sido construídos com concreto de alta resistência e à prova de fogo. Barras de reforço especialmente projetadas foram incorporadas para ajudar a proteger essas áreas. Hoje as escadas nesse tipo de construção são altamente pressurizadas. Isso evita que a fumaça passe pelas portas fechadas, facilitando a fuga e o acesso para combate a incêndios.


No antigo WTC os núcleos das escadas estavam contidos em placas de gesso de baixa resistência (drywall). Durante os ataques eles se desintegraram nas zonas de impacto e prenderam os ocupantes que estavam nos andares acima. Algumas dessas pessoas sobreviveram sem ferimentos, ou com ferimentos superficiais, ao momento do choque dos aviões, mas não tiveram a menor chance de escapar dos incêndios e dos desabamentos devido às características das torres gêmeas.


Redundância para evitar colapso


Outro fator importante incorporado à construção de arranha-céus é algo que já faz parte da indústria aeronáutica há mais de 40 anos: a redundância. Em aviões comerciais sempre há redundância nos sistemas e equipamentos que são vitais para a navegação e controle das aeronaves. Se um sistema principal falha, um segundo entra em operação. Nos quesitos mais críticos há um terceiro sistema redundante para garantir a segurança do voo.


Embora não seja algo exatamente novo na construção civil, nas últimas duas décadas os engenheiros têm se preocupado mais com a redundância embutida em grandes edificações. O objetivo é evitar o colapso progressivo, que ocorre quando um elemento estrutural chave falha e provoca a falência de elementos adjacentes. Foi o que aconteceu ao World Trade Center nos ataques de 11 de setembro. Os incêndios e as altas temperaturas provocaram a flacidez das placas e a flambagem da estrutura de aço. Quando um ponto crítico cedeu, tudo veio abaixo.


O arquiteto americano Adrian Smith, que projetou o Burj Khalifa enquanto trabalhava na SOM e co-fundou o estúdio Adrian Smith + Gordon Gill Architecture (AS+GG), explica que a redundância embutida age transferindo a carga de elementos danificados para outro ponto da estrutura. Em outras palavras, se uma coluna colapsa, as demais precisam assumir a carga que era sustentada pela coluna ausente.


Funcionalidade e design


Uma mudança funcional que não tem relação direta com o atentado em Nova Iorque, mas vem sendo uma tendência desde então, é o uso misto. Até a década de 1990, prédios super altos eram essencialmente comerciais. Esses arranha-céus costumavam abrigar somente escritórios de grandes empresas nacionais e multinacionais. Hoje os edifícios também têm andares residenciais e áreas de convivência mista.



Para o arquiteto Ung-Joo Scott Lee, sócio da Morphosis Architects em Nova Iorque, há um esforço maior para compreender o aspecto comunitário das torres. A ideia vigente é permitir que vários inquilinos e diferentes tipos de espaços se unam, promovendo uma integração que é benéfica a todos e até auxilia na comercialização das unidades.


Os projetos arquitetônicos desenvolvidos em softwares de modelagem 3D também permitiram diversos avanços em termos de design e acurácia. Questões como aerodinâmica, ventilação, iluminação, eficiência energética, acústica e outros são previstos com uma exatidão sem precedentes.


De acordo com Lewis, da SOM, o design computacional avançou tanto que hoje é possível trabalhar em projetos de arranha-céus de uma maneira muito mais eficiente, reproduzindo centenas, senão milhares, de simulações a mais do que era possível no passado.


O resultado disso é que o compreensível pessimismo pós-11 de setembro de 2001, que chegou a cogitar o fim dos edifícios super altos, acabou se transformando em um marco do incrível salto que a arquitetura daria nos 20 anos seguintes.


Adaptado do artigo original de Lizzie Crook para a revista Dezeen


Fotos: 1) Maria Charizani; 2) Sean Adair/Reuters; 3) Greg Semendinger/NYPD; 4) Timo Volz; 5) Donna Hamlet; Vídeo: Kohn Pedersen Fox



Marcelo Idiarte

Assessoria de Comunicação

Rádio Arquitetura

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