15 designs de mobiliário do século 20 que viraram obras de arte



Rádio Arquitetura | 23/08/2021


Adaptado do artigo original de Mark Edwards para o site HighSnobiety


Os conceitos da era modernista deram forma ao design de móveis tal como o conhecemos hoje. Muitas dessas peças são agora obras de arte certificadas. Porém é relativamente fácil esquecer que a cadeira em que estamos sentados faz parte de um processo de design em constante evolução, que remonta ao início da existência humana.


Desde quando o homem primitivo precisou de um lugar para sentar, ou de uma prateleira para guardar suas pedras, o design de móveis tem sido parte essencial da vida. Estudos arqueológicos indicam que a humanidade já estava criando armários, cômodas, prateleiras e assentos pelo menos desde o século VIII a.C.


Dos primórdios até por volta de 1920, o design de móveis progrediu lentamente. Mas a partir desse período o salto foi considerável, sendo iniciada uma revolução que teve grande impacto social na vida contemporânea.


Estado da arte


Antes do Modernismo, móveis de madeira eram pesados e caros. A produção em escala era inviável. O valor de uma peça era determinado pelo tempo que o artesão levava para criá-la e montá-la.


O advento do Modernismo fez surgirem técnicas para produzir mobiliário de concepção simples, porém confortável, empilhável e licenciável. O foco estava na criação de móveis clean, leves e funcionais, utilizando materiais inteligentes que pudessem ser produzidos em escala a um preço acessível em todo o planeta.


Arquitetos e designers de várias escolas e movimentos, como os alemães da Bauhaus e os holandeses da De Stijl, foram aprimorando e agregando conceitos ao design modernista. Novos materiais e técnicas foram sendo experimentados, como aço tubular e dobras de madeira.


Essa profusão de ideias baseadas no princípio modernista resultou em centenas de criações que podem ser chamadas de o estado da arte. As 15 peças abaixo são alguns exemplos de móveis icônicos que representam a criatividade e a inovação do Modernismo no design.



01: F 51 Armchair and Sofa Suite

Designer: Walter Gropius | Ano: 1920



Walter Gropius foi o fundador da Bauhaus, o que faz dele um dos avós do mobiliário modernista. Em 1920 ele projetou a poltrona e o sofá F 51 para o escritório do diretor da Bauhaus, o que explica seu design imponente. Depois de retirar as generosas camadas de preenchimento, o F 51 é significativo por sua estrutura em balanço, com apoios de braço flutuando acima das almofadas e a parte inferior do sofá não tocando o chão. Isso compensa sua forma pesada, fazendo com que esse objeto maciço pareça estar levitando. Essa técnica viria a influenciar os designs das cadeiras em balanço de Mies van der Rohe, cujo trabalho acabou definindo boa parte dos móveis atuais.



02: Model B3 Chair

Designer: Marcel Breuer | Ano: 1925



A B3 ficou conhecida como cadeira Wassily depois que o designer Marcel Breuer fez uma cópia da original para o famoso artista plástico Wassily Kandinsky. Desenvolvida em 1925, essa peça inovou no uso de materiais para design de móveis. Breuer era professor na Bauhaus e frequentemente andava de bicicleta na área externa da escola. Um dia ele percebeu que se o aço tubular podia ser dobrado e usado como guidão de bicicletas, também poderia ser utilizado para criar mobiliário. Breuer então começou a moldar o contorno elegante da B3. O resultado é uma estrutura que parece apenas o esqueleto de uma poltrona sem estofamento, mas ainda assim confortável. O emprego revolucionário de aço tubular nessa peça mudaria para sempre a imagem do design de móveis.



03: Bauhaus Nesting Side Tables

Designer: Josef Albers | Ano: 1926



Quando pensamos em Bauhaus ou móveis modernistas, é natural imaginar aço, vidro e cores neutras. Entretanto, alguns designers da Bauhaus criaram peças que eram representações em 3D de seus trabalhos com tinta e tela. Josef Albers foi um desses artistas. As mesas de nidificação desenvolvidas por ele entre 1926 e 1927 adicionaram outra dimensão às suas obras de arte bidimensionais da série Homage To The Square, que lidavam com cor e geometria. Cada mesa era produzida em carvalho maciço, com tampo de vidro e camada de acrílico, geralmente usando as três cores principais da Bauhaus: vermelho, amarelo e azul. Projetadas para trabalhar de forma independente e interdependente umas das outras, as mesas de Albers são a personificação viva e funcional de experimentações com geometria.



04: LC4 Chaise Longue

Designers: Le Corbusier, Pierre Jeanneret e Charlotte Perriand | Ano: 1928



Le Corbusier chamou a espreguiçadeira LC4 de "máquina relaxante". Ela foi desenvolvida em torno da ideia de que, com o usuário sempre no centro dos princípios do design modernista, a forma e a função podem ser colocadas especificamente a serviço da ergonomia. Em outras palavras, tanto a geometria da LC4 quanto seus materiais foram projetados com uma coisa em mente: máximo conforto. Depois de sua exposição no Le Equipment d’une Habitation, estande dos três designers no Salão de Outono de Paris em 1929, a LC4 se tornou uma das peças mais conhecidas e desejadas entre o mobiliário do século XX.



05: LC2 Grand Confort, Petite Modèle Armchair

Designer: Le Corbusier | Ano: 1928



Le Corbusier, um dos indiscutíveis pioneiros da era modernista, disse certa vez: "poltronas são arquitetura, sofás são burgueses". A LC2 é provavelmente a poltrona arquitetônica mais imponente em que alguém poderá se sentar. Projetada em 1928, a poltrona é unida por uma espécie de espartilho tubular de aço externo e preenchida com almofadas de penas de ganso, tudo apoiado em uma estrutura de aço em forma de L. O próprio Le Corbusier a descreveu como uma "cesta de almofadas". A forma de cubo foi uma resposta ao design de poltronas club e é uma aula de simplificação, refinamento e subtração, preservando apenas os fundamentos do design.



06: Barcelona Chair

Designer: Ludwig Mies van der Rohe | Ano: 1929



Mies van der Rohe foi um gênio modernista que dominou o mundo da arquitetura e do design de móveis. A cadeira Barcelona é talvez sua peça de mobiliário mais icônica. Seu design é inspirado nas formas em X das cadeiras dobráveis egípcias e bancos dobráveis romanos. Mies, como era conhecido, pretendia alçar esse design simples a um trono digno da realeza, por isso a cadeira foi planejada para a família real espanhola descansar suas pernas durante a Exposição de Barcelona em 1929. No ano seguinte Mies foi nomeado chefe da Bauhaus, pouco antes de a escola ser fechada pelos nazistas. Somente em 1950 ele revisitou o design da cadeira Barcelona, usando técnicas atualizadas para criar sua estrutura em balanço a partir de uma única peça de aço. Esta versão refinada logo foi escolhida pela empresa americana de móveis Knoll, passando a ser produzida no mundo inteiro. Até hoje é um dos projetos de cadeira mais conhecidos do planeta.



07: Stool 60

Designer: Alvar Aalto | Ano: 1933



O banquinho 60, de Alvar Aalto, parece muito simples pelo fato de ser composto de apenas três pernas e um assento redondo conectando tudo. Mas essa percepção não condiz com a enorme quantidade de raciocínio que envolveu sua criação. Aalto disse certa vez que "a perna da cadeira é a irmã mais nova da coluna arquitetônica". Ele percebeu que seria muito fácil produzir em escala essas mini colunas se fosse possível evitar o trabalhoso processo de confeccionar juntas em ângulo reto na madeira. A melhor forma de contornar isso seria dobrar a própria madeira, com a bétula finlandesa provando ser ideal para esse fim. Assim nasceu toda uma nova técnica de construção por trás de um simples banquinho.



08: Nelson Platform Bench

Designer: George Nelson | Ano: 1946



O banco plataforma Nelson é uma demonstração perfeita do design como um marco capaz de mudar o curso da cultura civilizatória como um todo. É fácil olhar para essa peça agora e pensar na IKEA, famosa empresa sueca de móveis. Mas é exatamente por isso que o banco é tão importante. Projetado em 1946, suas linhas retilíneas eram chocantemente novas para a época. A filosofia George Nelson de design "honesto" exigia que a bancada não fosse nada além do que era — sem enfeites, apenas funcionalidade, flexibilidade e praticidade. É muito nítido o efeito que isso teve em grande parte dos móveis produzidos hoje.



09: Noguchi Coffee Table

Designer: Isamu Noguchi | Ano: 1947



Um dos preceitos mais interessantes do Modernismo é a ideia de clareza. A mesa de centro Noguchi tem zero peças ocultas: é feita de apenas três componentes, todos revelados em sua totalidade. As linhas amplas da mesa revelam a formação do designer Isamu Noguchi também como escultor. O catálogo do ano de 1947 da famosa loja americana Herman Miller descrevia a mesa de centro Noguchi como uma "escultura para uso". Essa verdadeira obra-prima do design ainda é licenciada pela Herman Miller, com quem Noguchi manteve um relacionamento longo e produtivo até sua morte, em 1988.



10: Florence Knoll Sofa

Designer: Florence Knoll | Ano: 1954



Florence Knoll é mais conhecida como diretora de design da Knoll. Ela assumiu o controle da empresa depois que seu marido, Hans Knoll, faleceu em um acidente de automóvel em 1955. Na época a Knoll atuava como editora para designers de primeira linha, e Florence persuadiu arquitetos como Mies van der Rohe e Eero Saarinen a colaborarem com designs de móveis para seus livros. A contribuição mais significativa dela para o design foi como uma espécie de diretora criativa para toda a indústria. Muitos projetos da empresa também eram de Florence, os quais impulsionaram a formação da estética de escritórios dos anos 1950 e 1960. Seu sofá é uma peça icônica por si só e resume sua atitude em relação ao design: geometria quadrada, uma mistura de tecidos e aço, e uma forma limpa que ainda hoje parece atual.



11: Eames Lounge Chair

Designer: Charles e Ray Eames | Ano: 1956



O casal de designers Charles e Ray Eames criou essas peças icônicas pelo desejo de melhorar as espreguiçadeiras comumente vistas em muitos porões americanos. O objetivo da poltrona Eames é simples: conforto. Os designers pretendiam que a mobília tivesse o "visual caloroso e receptivo de uma luva de primeira base", em uma referência ao popular jogo de beisebol. Quando a cadeira e a otomana foram introduzidas em 1956, essa intenção particular levou a coisas muito maiores. O design do conjunto o tornou um dos mais instantaneamente reconhecíveis do século XX. E ainda parece tão atual quanto no dia em que foi lançado.



12: Egg Chair

Designer: Arne Jacobsen | Ano: 1958



Você provavelmente já viu a cadeira Egg por aí: ela está em toda parte. Até o McDonald's já teve a Egg nas suas lojas em bairros e shoppings mais sofisticados. A ideia por trás da forma de ovo é que ele deve dar ao seu usuário alguma privacidade em espaços públicos. Funciona, graças a seus lados altos e envolventes. A cadeira Egg foi originalmente projetada pelo dinamarquês Arne Jacobsen para a recepção do Radisson Collection Royal Hotel, de Copenhague, em 1958. Acabou se tornando um dos designs de cadeira mais conhecidos do último século.



13: 606 Universal Shelving System

Designer: Dieter Rams | Ano: 1960



O conceito do designer Dieter Rams para o sistema universal de prateleiras 606 começou com a ideia de que "uma estante deve ser neutra, sua vida vem dos livros que contém". Rams ampliou isso para criar um sistema de prateleiras totalmente modular, que é customizável para cada lugar onde é montado. Projetado em 1960, o sistema 606 é muito mais do que uma mera estante de livros: pode ser adaptado para acomodar qualquer coisa que o usuário precisar, desde objetos de arte a documentos arquitetônicos. Seu valor está em sua flexibilidade modular, sendo imediatamente reconhecível pelas linhas claras e nítidas que permeiam todo o trabalho do designer alemão. Não é difícil ver o legado que o 606 deixou: hoje existem até imitações baratas que podem ser encontradas em todos os lugares.



14: Arco Floor Lamp

Designers: Achille e Pier Castiglioni | Ano: 1962



O escopo para a luminária de chão Arco era simples: criar uma luz suspensa sem o incômodo de conectá-la ao teto. O resultado é uma demonstração perfeita do ponto ideal onde forma e função se encontram: uma base de mármore pesada, um pescoço de aço arqueado, uma lâmpada suspensa e sombra — todos trabalhando em conjunto para criar um objeto que é tão simples quanto pode ser, atingindo totalmente seu objetivo. Projetada pelos irmãos Castiglioni em Milão, a luminária Arco é inspirada na iluminação pública. Desde 1962 se tornou uma peça muito reproduzida mundo afora, gerando várias cópias e imitações. Olhando hoje em lojas de iluminação é fácil dizer que esse conceito já foi visto um milhão de vezes. Mas a clarividência estava na peça original dos anos 1960, que provou ser um ícone que mudou o design de iluminação para sempre.



15: 620 Chair Programme

Designer: Dieter Rams | Ano: 1962



O lema de Dieter Rams era "menos, porém melhor". Com isso em mente, dá para entender por que o chefe de design da Apple, Jony Ive, inspirou-se tanto no trabalho de Rams. A poltrona desenvolvida por ele em 1962 é a representação perfeita desse conceito. Com um design mínimo e preciso, completamente modular, parece que a poltrona 620 foi retirada diretamente da cabine de primeira classe do avião Concorde. A mobília é descrita pela antiga empresa alemã Vitsoe, hoje britânica, como "um kit de peças, não apenas uma cadeira". A 620 foi projetada com componentes de alta qualidade, que prometem melhorar com o tempo. Ou seja, é uma poltrona para toda a vida. Ou talvez mais.


Adaptado do artigo original de Mark Edwards para o site HighSnobiety



Marcelo Idiarte

Assessoria de Comunicação

Rádio Arquitetura

E-mail | WhatsApp